Já
discuti nesta coluna aspectos do desenvolvimento econômico em contaste
com o “desenvolvimento sustentável”. Agora me preocupo
em lançar questionamentos quanto ao uso dos recursos naturais no
nosso mundo capitalista. E também quanto aos impactos ambientais
decorrentes de empreendimentos em sua fase de construção
ou operação.
Toda a preocupação, seja da sociedade ou do estado, gira
em torno da manutenção do “equilíbrio ecológico
/ ambiental” para a garantia da qualidade de vida, ou mesmo a nossa
própria sobrevivência no futuro. Mas a idéia do equilíbrio
é muito vaga. Resumindo, não existe um equilíbrio
estático na natureza, ou seja, ter o objetivo de manter um ambiente
exatamente como ele está é algo que não faz sentido,
pois a natureza é dinâmica e está sempre mudando.
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estamos falando de equilíbrio dinâmico: a idéia
é manter um “ambiente saudável” onde
os processos ecológicos se mantenham, independente da variação
da composição de espécies e abundância
de indivíduos ao longo do tempo. Deve existir, portanto,
um balanço entre o que é produzido e o que é
consumido no sistema. É desta maneira que o mundo ficaria
mais “equilibrado e saudável”.
Entretanto,
a humanidade precisa usar esses recursos naturais para viver.
Não preciso dizer que o uso indiscriminado, apenas consumindo
e retirando predatoriamente sem se preocupar com o ambiente de
onde se consumiu / retirou é uma maneira extremamente ignorante,
baseada na idéia do ganho fácil e de que os recursos
são infindáveis.
Apesar de parecer algo insano, foi o mais comum no passado da
nossa história e atualmente ainda é a prática
mais difundida. No entanto, o Estado e a opinião pública,
em sua maioria, já chegaram à conclusão de
que desta maneira não teremos futuro nenhum, além
de não ser economicamente viável. Daí surgiu
a idéia do uso sustentável e de se controlar a execução
de empreendimentos potencialmente poluidores. Só que na
prática, em muitos casos, está longe do ideal de
sustentabilidade e conservação.
Por
exemplo, como garantir que o manejo sustentável de espécies
madeireiras na Amazônia (o famoso selo verde) vai assegurar
o equilíbrio da floresta utilizada, se não se sabe
como a floresta responde à ausência das espécies
utilizadas, normalmente árvores grandes que sustentam uma
infinidade de outros seres vivos?
Na
realidade, as empresas que possuem o tal selo verde já
estão comprando mais áreas, pois estão percebendo
que as áreas manejadas de 20 anos atrás não
se recuperaram e não possuem potencial econômico.
Certamente
isto é melhor que o corte raso destruidor, mas garante
algum futuro?
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Ou então
podemos pensar no processo de licenciamento ambiental. Os estudos e avaliações
de impacto ambiental e os monitoramentos da biota no decorrer da instalação
e operação dos empreendimentos não garantem o equilíbrio
ecológico e a qualidade de vida, devido principalmente à
rapidez com que são feitos esses estudos. Eles normalmente dão
uma idéia geral. É praticamente impossível que impeçam
um empreendimento de ser realizado. Da mesma maneira, melhor do que se
não existissem, mas, e daí? E a garantia que gostaríamos
de ter de um ambiente saudável? E ainda existe o problema de freqüentemente
serem feitos laudos técnicos fraudulentos por consultoras sem ética,
para garantir o empreendimento acima de qualquer dano ambiental relevante
e irreversível, em prol do dinheiro.
Não
adianta, o que manda em nosso mundo é poder do dinheiro. O papel
dos ambientalistas é mostrar que destruição ambiental
não é economicamente viável no médio prazo.
Isso já está sendo feito e crescendo a cada dia, com o
desenvolvimento de estudos de economia ambiental e outros similares.
Um assunto delicado é quais parâmetros utilizar e como.
Mas já é um bom começo, o convencimento das empresas
de que devem cuidar - realmente - do ambiente, se não terão
sérios prejuízos e mancharão sua imagem, dificultando
a obtenção de um lucro significativo. É por aí
que os ambientalistas devem agir. Não adianta ficar na ingenuidade
de que “todos os seres vivos tem o direito de viver”, ou
outros argumentos conservacionistas do tipo. Isso é papel da
educação ambiental, fundamental, mas que atuará
no longo prazo.
O problema
ambiental é urgente e precisamos saber lidar com o capitalismo
e a degradação ambiental conseqüente, agindo imediatamente.
Para isso, temos que entrar no mundo e na lógica desse poder
dominante e encontrar uma solução de equilíbrio,
entre as necessidades humanas e o que o ambiente pode oferecer perpetuamente.
Branca
M. O. Medina - branca@biologo.com.br
Bióloga licenciada e bacharel em ecologia pela
UFRJ e mestre em ecologia, conservação e manejo da vida
silvestre pela UFMG. |